Felicidade de plástico
Dou-lhe um tiro! Ai pois dou! Que eu veja um velho de barbas brancas e vestido de vermelho a tentar descer pela minha chaminé... ora se dou! Mas é que nem penso duas vezes! E ainda lhe atiço os cães quando ele cair!
Todo este alvoroço em volta dos dois meses e meio de ultra-consumo vulgarmente denominado por Natal chateia-me um bocado. É que não se pode passear nem passar em lado nenhum sem levar com um "feliz Natal"! Mas só durante este período. Nunca ouço alguém dizer "tenha um feliz Janeiro" ou Fevereirou, ou Março, ou "tenha um feliz... dia" ao menos. Ok, com excepção daquela simpática bomba de gasolina da Galp que me deseja sempre um dia positivo.
Será que tem vantagens fingirmos que gostamos de toda a gente durante 15% do ano? Você lembra-se daquele puto ranhoso que lhe roubou o dinheiro do almoço durante 5 anos seguidos na escola básica? Vá, deseje-lhe um feliz Natal! Que tudo lhe corra bem e que ele receba muitas prendinhas! Àquele engatatão que lhe roubou a namorada três vezes no secundário! Ao patrão que lhe cortou o subsídio de férias para metade e acabou com a remuneração das horas extra! Diga-lhe "boas festas"!... Não é fácil, pois não?... Agora percebo porque é que os ursos hibernam.
É uma "felicidade de plástico". As pessoas andam mais felizes só porque sentem que é altura de o fazer. O sentimento prolonga-se até aos primeiros quinze dias de Janeiro, quando ainda toda a gente anda a desejar Feliz Ano Novo às pedras da calçada, ao cães, aos gatos, aos periquitos, aos marcos de correio, enfim... a tudo o que se mexa ou não.
Proponho o inverso do Natal! Um Dizmal! Quero 2 ou 3 meses para poder dizer às pessoas o que realmente penso delas. Para poder chamá-las de tudo, para poder insultá-las livremente, à família delas, aos antepassados, aos animais de estimação, aos amigos delas. Para pregar partidas daquelas ofensivas, como meter bananas (e podia ser outro fruto qualquer) nos canos de escape dos carros de quem não gosto, despoletar bombas de mau cheiro em locais hiper-lotados (como os transportes públicos ou as casas-de-banho das discotecas). Para poder mandar o meu chefe para os sítios mais recônditos do corpo humano sem a ameaça de um processo disciplinar e de despedimento por (alegada) justa causa. Como era "Dizmal", ninguém levava a mal... Chamemos-lhe um período anual de descompressão. Sei que seria um período complicado para muitos psiquiatras por falta de trabalho, sendo que extravasar os sentimentos é a melhor forma de terapia. Julgo mesmo que poderia ser a época mais concorrida e mais esperada de todo o ano. Eu, pelo menos, vibro (não como um massajador facial) só de pensar nas alegrias e no intenso prazer que tal período me traria.
E até podia ser logo depois do Natal, que era para poder esvaziar toda aquela hipocrisia que se vai acumulando durante as festas.
Estará o leitor a pensar: "Olha-me este... fica meia dúzia de meses sem aparecer e volta com atitude! Deve estar naquela altura do mês!"** Puro engano. O Jhurnalisto é assim o ano todo.
Esta é a proposta do Jhurnalisto para um mundo melhor, mais justo, mais equilibrado, mais Yin & Yang. No fundo, um mundo mais... real. Pensem nisso. Se quiserem, façam circular um abaixo-assinado, fundem uma associação, criem uma fundação, mas por favor... não me desejem um Feliz Natal!
Ghis revido
PJ
** Entenda-se por "aquela altura do mês" o período entre os dias 9 e 25, quando o cidadão, depois de pagar as dívidas, as prestações, o colégio dos putos, o ginásio, a luz, a água, o gás, a TV Cabo, o telemóvel, a internet, os arrumadores e o canalizador que veio arranjar pela décima vez o cano roto na casa-de-banho, apercebe-se que ficou com 33 cêntimos para poder esbanjar nas duas ou três semanas do mês que lhe faltam.



